Divisor de águas

Chega um momento na vida da gente,  que você olha ao redor  e se dá conta que precisa sacudir a poeira fazer alguma coisa diferente da vida. Pois é…  Esse momento chegou pra mim em meados de 2008.

Formada em Letras, trabalhando há 7 anos como professora de series iniciais e finais do ensino fundamental, estava decidida a buscar algo diferente. Pensava em fazer várias coisas, mas tudo girava em torno de dinheiro, não tinha dinheiro para viajar, não tinha dinheiro para iniciar outra faculdade, não tinha dinheiro para fazer um intercâmbio. O que fazer, então?

Tenho que achar um trabalho que me possibilite viajar!!

Aeromoça quem sabe?

Fui tentar, cheguei a fazer uma entrevista para a Fly Emirates, mas eu não tinha um requisito básico para a profissão: altura! Com os meus 1,54 reprovei já na segunda fase. Entrar para a escola de aviação nem pensar, para fazer a matrícula tinha que ter 1,65. Que falta de sorte ou de hormônio do crescimento!

Até que um dia durante uma conversa no intervalo uma colega me disse que assistiu a uma reportagem sobre trabalho a bordo de navio de cruzeiros e lembrou-se de mim.

Curiosa, mas não tão certa de que realmente era esse o “algo novo” que estava procurando, fui buscar mais informações a respeito.

Era uma sexta-feira do mês de setembro, cheguei em casa e fui pesquisar na Internet  sobre o assunto e descobri que as inscrições acabavam no sábado pela manhã, ou seja, no dia seguinte. Era ou vai ou racha, não tinha muito tempo pra pensar no assunto.

Fui dormir naquela noite tentando decidir se realmente eu iria acordar às 5 da manhã, me deslocar até Porto Alegre para essa entrevista, se eu nem sabia direito se queria mesmo aquilo… Mas fui. Um pequeno detalhe, chovia canivete naquele dia.

Ao chegar ao local da entrevista, um hotel no centro da cidade, estavam todos os candidatos aguardando numa sala de espera. Juntei-me a eles e comecei a observar. Vi alguns já praticando o inglês (já que a entrevista seria nesse idioma), outros lendo revistas, e alguns poucos tentando se enturmar puxando uma conversa aqui outra ali, mas a grande maioria estava calada. Reparei em especial em um homem, com mais ou menos 40 anos, que falava um inglês muito bom, com uma naturalidade e fluência de causar inveja. Pensei no meu inglês e fiquei envergonhada.

Como se não bastasse de 5 em 5 minutos vinha um dos organizadores dizendo que quem não estivesse seguro com seu inglês que repensasse a participação na entrevista, pois a seleção era para uma empresa americana e era necessário inglês avançado. (Bem assim, acreditam? Na hora pensei que já tinham poucas vagas e estavam mesmo era dispensando o pessoal).

Batia aquela insegurança e cada vez que ele voltava e repetia a frase eu ficava a ponto de levantar e sair da sala como muitos faziam. Era até engraçado, mal o organizador terminava de falar e as pessoas se olhavam, davam uma disfarçadinha, iam até o bebedouro e caiam fora. Mas pensei: não acordei às 5 da manhã, enfrentei a chuva torrencial e um busão pra chegar aqui e ir embora sem nem tentar.

Lá pelas tantas, chamaram a gente para outra sala, deram as informações gerais e começaram a chamar para a entrevista. Chamavam em duplas já que o objetivo dessa primeira entrevista era somente avaliar seu nível de inglês e dar uma checada no seu currículo, ver se havia posições pra nos encaixar.

Quando me chamaram, levantei e me dirigi até a sala, e para minha surpresa meu parceiro de entrevista era justamente aquele candidato do inglês de dar inveja. Meu Deus!! Por que justo ele? Vou passar vergonha certo, pensei cá com meus botões.  Respirei fundo e fui já que não tinha outra escolha.

O entrevistador era muito simpático e atencioso e a entrevista foi super tranqüila. Ao final até agradeci ter tido a oportunidade de conhecer o “homem do inglês mega-avançado” que era muito “gente boa” e falava tanto que quase não consegui abrir a boca. Sorte a minha. Fui selecionada. Tivemos curso no domingo e na segunda-feira já faríamos a entrevista final com o representante da Royal Caribbean.

Na semana seguinte, saiu a lista dos selecionados para embarcar e eu estava lá. Seria tripulante da Royal Caribbean International. Pomposo? Nenhum pouco. Mas que era diferente era.

Vision

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